quarta-feira, 10 de agosto de 2011


Muito Obrigado.



PAULO

Não esperava que viesses.



RICARDO

Não enviasses convite.

(PAULO ri-se)

Qual é a piada?



PAULO (continua a rir-se)

Tu.

Tu estares aqui.

Tu aqui.

Essa é a piada.

Tu – de todas as pessoas – estares aqui.

No meu casamento.

Essa é a piada.



RICARDO

Não enviasses convite.



PAULO (subitamente sério)

O que é que estás aqui a fazer?

(pausa)

Eu enviei 523 convites.

Desses 523 convites 124 responderam que não podiam comparecer.

85 nem um ‘não’ responderam.



RICARDO

O que é que isso tem a ver comigo?



PAULO

Eu percorri 124 respostas vezes e vezes sem conta.

Sempre à procura do teu nome num daqueles pequenos pedaços de cartão casca-de-ovo horríveis que a Catarina insistiu em escolher.

E sabes o que eu fiz depois de ter a certeza absoluta de que o teu nome não estava no monte dos ‘NÃOS’?



RICARDO

Não.



PAULO

Esperei.

Esperei.

E esperei.

Até hoje.

Até hoje esperei.

E desejei que tu fosses pertencer ao pequeno monte de pessoas que não disseram nada.

(pausa)

E sabes porque é que eu esperei?



RICARDO

Não.



PAULO

Porque…

Porque…

Sete anos…

Sem uma única palavra.

Sete anos!

E tu decides aparecer aqui.

DO NADA!

(PAULO finalmente sai da sua posição inicial. Quando isso acontece as luzes devem subir novamente e o cenário deve-se encontrar despido dos convidados que o povoavam anteriormente. O único elemento que se deve manter é um som difuso, que se pode assemelhar a música.)

Apareces aqui.

Aqui.

No meu casamento.



RICARDO

(pausa)

Não enviasses convite.



PAULO

Não estava – como tentei explicar – à espera que viesses.



RICARDO

Então porque é que mandaste o convite?



(pausa)



PAULO

Porque é que vieste?

RICARDO

Eu perguntei primeiro.



PAULO (sorri)

Não comeces…



RICARDO (sorri também e pausa)

Tinha de ver com os meus próprios olhos.

Tinha de te ver.

Tinha de vir.

Não podia faltar ao teu casamento.

Não podia faltar ao teu funeral.



PAULO

Não.



RICARDO

Eu –



PAULO

Não.

Não!

NÃO!



RICARDO

Paulo –

PAULO

Não.

Tu não tens o direito de –

De aparecer.

Não tens o direito de opinar.

Tu não tens direito.



RICARDO

Eu não quero direitos.

Eu –



PAULO

Cala-te!

Por favor, cala-te.

Por favor.



RICARDO

Eu vim de propósito para falar contigo.



PAULO

Não.



RICARDO

Tu estás a cometer um erro.

Um erro enorme.



PAULO

Tu não podes chegar aqui.

Chegar aqui e dizer isso.

Dizer.

Que isto é um erro.

ISTO é o que eu quero.



RICARDO

Ninguém escolhe morrer.



PAULO

Muita gente decide morrer.



RICARDO

Não assim.



PAULO

Eu escolho morrer assim.

E eu estou bem com essa decisão.

E eu não tenho de me justificar.

Muito menos perante ti.



RICARDO

Tu estás a cometer o maior erro da tua vida.





PAULO

Eu estou sempre a cometer o maior erro da minha vida.



(Longa pausa. PAULO e RICARDO devem permanecer face a face durante isto. Imóveis. À medida que as luzes baixam e se concentram nas suas duas figuras os sons de antes devem-se tornar perceptíveis – é música. Música triste. De desejo. De desejo rompido. O tipo de música que um adolescente não ouve. Mas o tipo de música que só um adolescente compreende na totalidade.)



Eu sou uma lista de maiores erros da minha vida.

Eu sou um –



RICARDO

Um erro?

Ainda agora cheguei e já vamos nessa conversa?

Sete anos e ainda vamos na mesma conversa?



PAULO

Porque é que vieste?



(longa pausa)



RICARDO

Não consegui não vir.

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