Escuridão total.
VOZ
Pedia-vos agora uma enorme salva de palmas para os nossos noivos que irão dançar a sua primeira dança enquanto marido e mulher.
Entra PAULO e DANIELA, que após um pequeno compasso de espera começam a dançar carinhosamente ao som de I Know Places de Lykke Li sob um único foco de luz que os persegue. Quando a música termina DANIELA abraça PAULO e afasta-se dele. Deve-se perceber que ela chora ao sair de cena. PAULO permanece sozinho por um momento. Imóvel.
VOZ
Aqui, aqui!
Sorria para a câmara. Um momento histórico este.
A sua primeira dança enquanto homem casado!
Ouve-se o disparo de uma máquina fotográfica. O flash da máquina deverá ser substituído pelas luzes de palco que revelarão um enorme salão, repleto de pessoas decentemente vestidas que aplaudem alegremente. Deverão ser visíveis também aqueles convidados (normalmente os tios ranhosos) que observam tudo com o maior tom de superioridade e nojo. A música deverá ser alegre e apropriada para um casamento, mas não demasiado erudita. Sugeria um pouco de Duke Ellington. Não que a acção se desenrole nos anos 20, mas um pouco de Jazz nunca magoou ninguém. PAULO deverá continuar imóvel durante instantes; depois deverá levar as palmas das mãos à cara e baixar a cabeça. Quando o fizer tudo deverá ficar inundado na escuridão.
PAULO (imóvel)
«Nas mansardas do crime e do pecado
Desafiando a sífilis e a morte
Dei-me nua a dançar!...»
Desafiando a sífilis e a morte
Dei-me nua a dançar!...»
Que ridículo falar em verso.
Mas falta o engenho para me apresentar desdenhosamente.
Quando as únicas palavras que carrego na minha boca.
Da minha autoria.
São – Estou casado, morri.
(ri-se.)
Na verdade, venho tão bem ou mais aperaltado que irei no meu caixão.
Sim, porque eu quero ser enterrado e comido pelos bichinhos!
Chega-me uma vida inteira de viver contra a Natureza das coisas.
(pausa)
Não creio para mim mesmo que isto será uma história de amor.
Eu amo a Daniela. E as histórias de amor acabam em casamento.
Não começam nele.
(pausa)
Não julgo que se torne numa comédia de costumes sobre como valorizamos em demasia o A-M-O-R.
E como menosprezamos as tradições familiares hoje em dia e preferimos ver o Big Brother.
Não tenho vida para essas histórias.
Talvez alguém morra!
(pausa)
Literalmente.
Se calhar alguém vai aparecer morto e vamos ter de resolver o mistério.
Sempre gostei imenso de jogar Mousetrap.
(pausa)
Incrível.
É o meu próprio funeral e estou a pensar em escrever.
VOZ
Esta música é dedicada a todos aqueles que ainda não encontraram a sorte como os nossos noivos de hoje. Não percam a esperança.
Um segundo foco surge por trás de PAULO revelando uma pequena plataforma com um varão. Ouvem-se passos. RICARDO surge então e sobe para a plataforma.
RICARDO
Não se esqueçam de se apaixonarem.
Começa a cantar I Just Don’t Know What To Do With Myself dos The White Stripes ao mesmo tempo que interage com o varão. O uso do verbo pode parecer ridículo, mas não imagino que ele dance completamente como uma stripper – nem imagino que tenha esse tipo de experiência (não sei. Ainda não o conheço bem.) PAULO deverá continuar imóvel. Na última batida da música as luzes deverão subir novamente e o ambiente deverá ser o mesmo, mas com menos pessoas. Obviamente que os tios ranhosos permanecem. Esse tipo de pessoas gosta de ficar até ao fim para poder criticar tudo em todas as reuniões familiares posteriores.
RICARDO
Obrigado.
RICARDO desce da plataforma e caminha em direcção de PAULO. Enquanto isto acontece as luzes deverão novamente baixar.
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