quarta-feira, 6 de julho de 2011

Às vezes penso se tomei a decisão certa em vir para aqui. Estes acontecimentos normalmente ocorrem no limiar da escuridão da noite quando passa o mesmo bêbado sem-abrigo por baixo da janela do quarto berrando qualquer insulto ao governo actual. Estranho como pareça é o único momento da minha rotina em que percebo que we’re not in Kansas anymore.

E nesse momento, dependendo de onde esteja a dormir, olho para a Sara. Não sei no que penso, mas sei que olhar para ela me perturba ainda mais. Nesses momentos soturnos ela não é mais aquela pessoa que veio comigo nesta aventura, mas uma lembrança com pernas e braços e cabeça de tudo o que deixei para trás.

Mesmo a expressão «deixar para trás» me cai no goto como um trago de sumo de limão no final de um shot de tequila. Tudo nestes momentos se torna numa derrota amarga. Tudo se torna questionável. Tudo menos termos despedido a empregada de limpeza.  

É normal sentir isto não é? É normal sentir – passado um mês – que o meu corpo ainda não pertence a esta Wonderland. Sentir-me tão em casa como o bêbado que continua a insultar o governo no meio das ruas. A Alice também não pertencia à dela e por isso é que acontecia aquilo tudo. Às vezes só quero olhar pela minha janela e ver a Lua. Esta que eu vejo não é a mesma que eu via da janela do meu quarto. Esta é-me tão estranha como a comida que tenho vindo a comer.

E o pior é que quando estes momentos se debruçam sobre mim não são como nas cenas dos filmes que tanto gostamos. Não existe vício nenhum que os apague. Quando mergulho nestes longos momentos de dúvida não há droga que os suavize. Quando isto acontece só posso olhar para o papel de parede datado que cobre as paredes deste quarto estranho desta casa que não é minha e tentar fazer o menor barulho possível enquanto choro com medo de estar a cometer o maior erro da minha vida.



Beijo,

Diogo