quarta-feira, 18 de maio de 2011

II

Uma sala de teatro à italiana. A plateia é constituída por perto de 1000 espectadores imersos na quase escuridão sepulcral do espectáculo. Contudo nem todas as cadeiras se encontram ocupadas. Há um momento de silêncio. As luzes sobem.
Aplausos.
Aos poucos e poucos as pessoas começam a sair da sala até que esta se encontra aparentemente vazia. Num dos camarotes de 2ª ordem, uma figura masculina permanece parcialmente escondida pela cortina vermelha coçada.
Ele aparenta estar na casa dos 30. Veste-se como um professor ou homem chato dos livros se vestiria. À medida que o tempo se alonga vai-se tornando mais audível um gemido. Cada vez mais audível. Até que – meio abafado – a figura deixa soltar um grunhido de “prazer”. Deverá surgir aos olhos do público – com a devida pausa - uma segunda figura masculina – esta muito mais jovem – que se levanta rapidamente. Ele parece aflito. Olha à volta torturado para grande deleite da figura mais velha. Apercebendo-se disto a figura mais jovem inclina-se sobre a varanda do camarote e cospe. A figura mais velha corre para confirmar o que o outro havia feito.

JOVEM
Adeus.

A figura jovem sai do camarote assertivamente. A figura mais velha permanece no parapeito do camarote olhando com um misto de repulsa e gozo para o que o outro havia feito. A figura jovem caminha pela carpete vermelha – esta aparentemente nova, ou simplesmente limpa – com um ligeiro gingar das ancas. Como se tivesse acabado de conquistar algo. Ou tirada uma boa nota num teste qualquer. Ou passado no exame de condução. Os funcionários do teatro por que passa não parecem estranhar a sua presença ali. Enquanto desce os dois lances de escadas luxuosas de mármore vai aproveitando para tirar da sua sacola o seu MP3 e coloca os seus auscultadores pretos e vermelhos na cabeça.

Quando chega ao último degrau pára. Como uma explosão começa a ser audível ao público música electro-rock. Estilo Death from Above 1979. Ou The Gossip. É de extrema importância que a música emoldure perfeitamente o andar confiante dele. Nas suas calças uma vibração repentina. Uma mensagem.

TELEMÓVEL
Já acabou? Estamos à tua espera em S. Bento.

As ruas encontram-se parcialmente desertas. Mas parcialmente populadas. Ao descer a Rua 31 de Janeiro ele pára em algumas montras. É de noite. É Verão. Ele veste uma t-shirt clara e umas calças de ganga escuras rasgadas. E pendurada num ombro – pode ser o direito – a sua sacola castanha. Enquanto caminha ele vai mexendo no MP3. The White Stripes. Arcade Fire. Caribou. O público tem acesso a estas mudanças de banda sonora.

Ao aproximar-se da estação repara nos corpos sujos que se escondem na sua entrada. Putas e putos. Alguns sentados no chão a comer talvez a sua única refeição do dia. Aproxima-se então de um grupo de 3 pessoas que se fecham num círculo no meio da zona de partidas e chegadas da estação.

JOVEM
Ei!.. Já estão nisso, Marta?

MARTA
Aleluia! Nisto?.. (Os três dão um pequeno salto, mas quando se apercebem de quem fala continuam a enrolar um charro.) A culpa é do Pedro. Ele é que disse para fazermos um enquanto não chegavas. Ele disse que tu demoras sempre.

PEDRO
Não é mentira nenhuma. (Lambe uma última vez a mortalha.)

JOVEM
Verdade. Está tudo bem, Bruno?

PEDRO
Ele não fala.


JOVEM
Oi? Porquê?

MARTA
Pergunta-lhe.

BRUNO
Deixem-me em paz. Isso já está pronto? Preciso de fumar.

JOVEM
Ei! Calma… (cantarola) Calma! Calma! Calma!

BRUNO
Não me chateies. Hoje não.

JOVEM
Ok. Tudo bem. Desculpa. Já está pronto isso?

PEDRO
(Passa o lume do isqueiro e com um beijinho sela o negócio.) Prontíssimo.

JOVEM
Então vamos embora.

BRUNA
Yah. Já estou farta de estar aqui. As pessoas não param de olhar para mim como se fosse alguma puta. (Os outros riem-se.) Não se riam. Tive para me oferecer a um velhote.
PEDRO
Ninguém te manda vir com esse decote.

BRUNA
Não gostas?

PEDRO
Eu? Sabes bem.

JOVEM
Vamos lá.

Sem comentários:

Enviar um comentário