O resto das paredes da casa por onde passou estavam despidas de qualquer adorno. Todas menos uma. Mesmo na entrada – ou saída neste caso – uma das paredes estava coberta de chão a tecto de fotografias, bilhetes de comboio, bilhetes de concertos, de cinema, panfletos e alguns objectos estranhos. Parou em frente a este mural e imaginou que aquele rapaz que dormia de barriga para baixo e cuja cara ele não se recordava devia fazer o mesmo todos os dias. Antes de sair relembrava-se de tudo e todos. Daniel ponderou se ele se recordaria dele. Se ele merecia um lembrete naquela parede. Pegou numa caneta e num bilhete de comboio perdido que residiam no bolso do seu casaco e escreveu nas costas deste:
“Errar é darmos as mãos / A qualquer vontade alheia… - Daniel.”
E aproveitando um pin qualquer prendeu-o num lugar visível. Tinha a certeza que ele daria conta dele ali no meio das suas memórias. Manteve-se imóvel novamente para ter a certeza que era reconhecível a olho nu a sua posição e ocorreu-lhe então que se deparava com a vida toda duma pessoa. Na entrada duma casa. E que se o tempo lhe permitisse e a vontade existisse ele poderia conhecer aquela pessoa sem cara. Mas não queria conhecer mais do que já tinha provado. Lenta e silenciosamente abriu a porta da rua e lenta e silenciosamente fechou a porta da rua.
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