Numa noite. De um dia qualquer. Desistiu de ser a personagem do filho pródigo que regressa a casa depois de conquistar os horizontes citadinos e é calorosamente abraçado pelos seus pais. Decidiu sair.
Noite de estrelas.
Estrelas. Quantos escritores, pensadores e avôs haviam dito até aquele momento que elas eram mais do que corpos celestes? Que seu significado era maior do que as poucas linhas que vinham nos nossos manuais de Ciências da Terra e da Vida que tínhamos na primária. Mas – pensou ele – o que interessava isso numa noite tão bela? A resposta era tão automática como as ovações que recebia em palco - nada.
Rua estreita ladeada de pequerruchas casas atrás de viela escura mal iluminada por aquele mesmo candeeiro levaram-no ao paço da igreja. De novo. Quando, lá longe, ele chamava aquelas ruas e vielas de seu reino e domínio o seu castelo era o edifício da igreja. Era o que mais se assemelhava a um castelo. Sob a luz das estrelas, dos candeeiros, e das janelas o edifício branco parecia um colosso fantasmagórico. Como outrora, aproximou-se das portas da igreja imaginando-se protegido por fileiras de guardas que se iam colocando em sentido enquanto passava. Conseguia ver pelas janelas as sombras de quem se mexia em correrias pelo regresso do seu governador. E isso deixava-o mais contente que os braços exageradamente abertos da sua Mãe. Quando subiu os primeiros degraus da curta escadaria para o seu castelo volveu as costas para observar o paço. Os seus súbditos tinham-se reunido em festa para o receber. E parecia uma cena de cinema. Mal conseguia ouvir os seus próprios pensamentos no meio dos gritos de euforia pelo seu retorno. Não conseguiu no meio das celebrações esconder um pequeno aceno e um sorriso comovido às multidões.
De repente, por entre os urros e palmas um pequeno e seco riso destacou-se. Alertado para o perigo de padecer aquando o seu regresso pelos seus fiéis conselheiros deu logo sinal aos guardas para procurarem quem se ria. Mas eles tinham desaparecido. E as palmas também. E as serpentinas. E os seus súbditos. Só um permanecia. No meio da luz das estrelas. Dos candeeiros. E das janelas só um ficara. Novamente um curto e seco riso se ouviu. Era ele.
Um rapaz afadistado,
Sujo, descalço, vigoroso,
- Uns vinte anos, se os tivesse!
Procura no meu olhar
Talvez o instinto do pecado
E pára um pouco ao pé de mim:
- Uma centelha de vício
Desbravado em lupanares
Que a sensualidade improvisa
Num portal ou no recanto
De uma rua solitária,
Fulge e amortece molhado
No mistério dos seus olhos
De um negro azul concentrado.
Põe-se a fazer um cigarro.
Pede-me lume; e então, vejo,
No seu todo o indício fundo
De andar vendido e dominado
Ao contacto vilíssimo de um beijo…
- «Não quer vir dar um passeio?»
E a sua voz abafada
Numa intenção descoberta,
Levou-me com ele…
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