quarta-feira, 13 de abril de 2011

O resto das paredes da casa por onde passou estavam despidas de qualquer adorno. Todas menos uma. Mesmo na entrada – ou saída neste caso – uma das paredes estava coberta de chão a tecto de fotografias, bilhetes de comboio, bilhetes de concertos, de cinema, panfletos e alguns objectos estranhos. Parou em frente a este mural e imaginou que aquele rapaz que dormia de barriga para baixo e cuja cara ele não se recordava devia fazer o mesmo todos os dias. Antes de sair relembrava-se de tudo e todos. Daniel ponderou se ele se recordaria dele. Se ele merecia um lembrete naquela parede. Pegou numa caneta e num bilhete de comboio perdido que residiam no bolso do seu casaco e escreveu nas costas deste:

 Errar é darmos as mãos / A qualquer vontade alheia… - Daniel.

E aproveitando um pin qualquer prendeu-o num lugar visível. Tinha a certeza que ele daria conta dele ali no meio das suas memórias. Manteve-se imóvel novamente para ter a certeza que era reconhecível a olho nu a sua posição e ocorreu-lhe então que se deparava com a vida toda duma pessoa. Na entrada duma casa. E que se o tempo lhe permitisse e a vontade existisse ele poderia conhecer aquela pessoa sem cara. Mas não queria conhecer mais do que já tinha provado. Lenta e silenciosamente abriu a porta da rua e lenta e silenciosamente fechou a porta da rua.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Aplausos? Não, buzinas. Como a das ambulâncias. Dos carros da polícia. Um barulho citadino demais para ser ouvido por aquelas bandas. Na escuridão perfurada pelos visores das persianas não conseguia perceber onde estava. Sem olhar, contudo, sabia que alguém estava ao seu lado. E sem tocar sabia que estava nu. E ele também. Sentia o linho gasto e prestes a desfiar a roçar na sua pele clara e tão cuidadosamente tratada. Sentia um misto de conquista – como um rei sentiria após uma batalha, ou um importante discurso – e um pingo de nojo por tal conquista. Limpou com a palma essa pinga de suor que lhe escorria pelo tronco.
Olhou para as paredes. E estranhou não notar muitas diferenças com o seu próprio quarto. Alguns posters. Algumas fotografias que brilhavam na semi-escuridão. Muita roupa a espreitar de tudo o que era canto, gaveta, ou superfície plana. Muitos sinais de que aquele corpo que estava deitado ao seu lado era jovem. Uma nova pinga começou a descer pelo seu peito em direcção ao umbigo. Esta de um sabor doce. De um prazer perverso e ao mesmo tempo inocente – como todo o prazer é. Ali estava. De barriga para baixo. Uma perfeita imagem de suavidade desnudada. Os pequenos fios de luz que entravam naquela divisão mostravam o seu corpo magro. Davam a entender a leve marca do bronze estival ao fundo das costas. Tinha um cabelo ruçado sem qualquer forma. Numa das orelhas que espreitava era visível um pequeno piercing. Pensou se teria sido um acto de rebeldia. Ou de afirmação. Não conseguia não construir uma história para aquele corpo que dormia ternamente a seu lado. Era belo. Pelo menos de costas. Não ficaria tempo suficiente ali para descobrir o resto. Tal como o rei que conquista novas terras, não queria conhecer a face das suas vítimas. Nunca ninguém quis saber o nome daquela menina que fugia da destruição meio - queimada no Vietname. Ele também não.
Com o maior do cuidado – e sem qualquer barulho – levantou-se da cama. O outro corpo permaneceu imóvel. Afinal todas aquelas aulas sobre como se mexer em palco sem qualquer alarido davam frutos. Agora de pé deixou-se ficar. Nu. Num quarto estranho. Pele besuntada sob a luz dispersa daquele ambiente. Um sorriso. A ponta da sua língua cobriu os seus lábios. Salgado. Meio ácido. De novo um sorriso. Calmamente levou a sua mão esquerda à boca. Percorreu os dedos com a língua. Salgado. Meio ácido. Doce. De novo um sorriso.
Por entre a luz, o cheiro acre a suor e os montes de roupa e papéis que se espalhavam pelo chão foi recolhendo a sua própria vestimenta. Mas não resistiu não levar uma lembrança à saída. Deus o perdoasse. «Deus teria feito o mesmo.» – pensou ele.