quarta-feira, 16 de março de 2011

A viagem não era longa demais, mas longa o suficiente para adormecer os músculos dos quadris e das pernas. Num dos olhares que ia lançando pelo vidro meio fosco do óleo e suor das mãos de outros passageiros reconheceu a paisagem civilizada que brotava no meio de algumas árvores. E quase num piscar de olhos o comboio parou. Um pouco acima do seu campo de visão uma seta vermelha de pixéis vermelhos indicava que a saída era a porta da esquerda.
Casa. Na verdade era a casa dos pais. Da sua mãe. Ele não tinha conseguido aguentar as viagens constantes para o Porto e, sob ameaças e maldições da sua mãe, decidiu passar a chamar a cidade de casa. E agora que caminhava por aquelas ruas sorria ao pensar no quão rapidamente elas tinham perdido qualquer significado. Ainda eram os sítios onde tinha andado de bicicleta no Verão, dado o primeiro beijo às escondidas depois de um dia de aulas e palco de outras memórias, mas eram só isso agora. Palco. E ele sentia-se um estranho na pele de um estranho que regressa a casa.
Ali estava ela. Pequenina. Fachada verde limão. Telhadinho laranja. Um pequenos jardim onde a sua mãe cultivara margaridas e outro tipo de flores simples emoldurado por um – o mesmo – portão preto. Conseguia ouvir o leve zumbido da televisão e a ocasional gargalhada do seu padrasto. Provavelmente estavam a ver um daqueles concursos apresentados por um daqueles humoristas sem piada. Já não voltava a casa da sua mãe há 6 meses 2 semanas e 3 dias. Sabia perfeitamente o que o esperava. Abraços e beijinhos. Urros de alegria e de saudades. Algumas lágrimas. A sua mãe argumentaria que ele estava mais magro apesar de ter engordado 8 quilos (fizera questão de se pesar). O seu padrasto convidaria-o a beber um cálice de vinho do Porto. E depois perguntariam pelas razões que o haviam impedido de os visitar mais cedo. E começariam as histórias e episódios familiares que perdera. A sua sobrinha provavelmente já saberia escrever. O seu irmão já teria comprado uma casa nova. Melhor.
Sentou-se no muro que separava o palco do acto seguinte. Acendeu um cigarro. Inspirar.

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