quarta-feira, 9 de março de 2011

O barulho de um Alfa despertou-o subitamente e nunca mais conseguiu fechar os olhos. O comboio ia quase vazio. Ninguém ia para os seus lados.

Ia passar uns dias a casa da mãe que o havia torturado durante semanas a fio. A sua mãe tinha-o educado sozinha desde os 4 anos, altura em que o seu pai fugiu. Sem rumo. As pessoas da sua família diziam-lhe sempre que ele era o retrato do seu pai. Palavras que ele usara desde então como desculpa para todo e qualquer mau comportamento ou decisão que perpetrava. Dentro e fora da família. O seu extenso curriculum vitae de empregos e relações eram justificados por essas palavras. Tudo era descartável.

No vidro do comboio conseguia ver a sua cara espelhada na semi-escuridão. Não se achava feio. Pelo contrário. Era bem arrogante no modo como se carregava e sabia que era o tipo de pessoa que atraía os olhares de desconhecidos quando entrava numa sala. Não conseguia ver a semelhança com o seu pai. Reconhecia de algumas fotos antigas e deslavadas os mesmos olhos escuros grandes e lábios carnudos e até mesmo a mesma figura franzina, mas não via o seu pai no seu reflexo daquela janela. Nas fotos o seu pai sempre lhe surgia como uma personalidade sombria e cáustica e, apesar dos dias que corriam, ele não via esses mesmos traços desenhados na sua testa. Não tinha aquelas duas rugas vincadas entre os olhos. Nem a pele tostada pelo sol. Os seus traços eram mais singelos. O seu olhar mais hospitaleiro. Os seus lábios mais apaixonados. Não via a semelhança, mas ao mesmo tempo não se queria distanciar muito dela.

A sua mãe permanecera intocada, após a fuga do seu marida, durante 22 anos. Ele nunca a incentivara a procurar um novo companheiro. Achara sempre que aquela devia ser a sua condição. E que ele seria o único homem com quem ela partilharia a cama. Não tinha a sua mãe como amargurada ou fria por tal. A verdade é que nunca colocara muito tempo nesse pensamento e não seria nessa viagem que o iria fazer. Gostava que ainda hoje ela lhe tirava as espinhas do bacalhau – quando o fazia para o almoço – e isso confortava-o e era-lhe suficiente.

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