Não foi sempre assim. Não. Ao sair pela porta das traseiras do teatro e fugindo às conversas exageradamente entusiastas de pessoas que nunca tinha visto e que sentiam obrigação de falar com ele sobre o quanto adoravam o seu trabalho, não se deixava esquecer do momento em que mudou.
«No meio de uma produção pomposa e condescendente é a interpretação de Daniel Teixeira (Lovborg) que mais deixa o espectador desorientado.»
Foi a única crítica má que foi tecida à produção. E aquelas 21 palavras a mancha excepcional ao seu trabalho. Já tinha recebido críticas desfavoráveis. Muito más até. Mas nunca lhe tinham dirigido uma crítica tão críptica. O que quer dizer deixar o público desorientado? Durante dias andou obcecado com aquele adjectivo. Percorreu dicionários e até outros artigos do mesmo autor na esperança que a diferente contextualização do mesmo adjectivo o fizesse compreender o que havia de errado com o seu trabalho. Consigo. Mas até o uso da palavra havia sido único. Desde então tudo lhe soube a derrota. Dentro e fora do palco. Dentro e fora de personagem.
Era Sábado – quase Domingo – e ele estava sentado no chão da estação de comboio. Faltavam 45 minutos para o seu comboio chegar. E uns outros quantos para partir. No seu colo um saco de papel rasgado servia de mesa posta e as ondas de chegadas e partidas de forma de entretenimento. Por aquela altura da noite, tal como aconteceria na televisão, surgiam também programas mais marginais que tentavam esconder-se pelos cantos do edifício azulejado. Romeus e Julietas de casa de banho e Lost Boys que vendiam a Terra-do-Nunca. Todos vestindo – ou despindo – roupa preta do seu corpo. O mundo afinal existia em dois tons. O secreto e o revelado.
Quando finalmente, ao som da chegada do seu comboio, se decidia levantar havia sempre aquele momento em que se perguntava o que aconteceria se o perdesse. E se perdesse o das 01:55. Ficaria ali na estação? Talvez se deixasse seduzir por uma Julieta. Ou se escondesse com um Romeu. Iria vaguear a noite atrás de si? Entrar, talvez, em bar atrás de bar. Dançar em escuro atrás de escuro. E talvez se deixasse seduzir aí por uma Julieta. Ou agarrasse um Romeu na escuridão. Talvez. Mas aquele adjectivo não o deixava dançar. Avançou.
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