Ao abrir da porta e ao sinal de um guincho imperceptível sabia que dava por si a contar os minutos pelo fim daquela visita. Alegando estar um pouco cansado da viagem conseguiu fugir – passada uma ou duas horas de conversas sobre as traquinices da infância dele, do Fiat 127 azul-marinho que os pais tinham quando ele era pequeno (quando ainda tinha pai) e a porta do passageiro não fechava, e até de como era a sua vida na cidade – para o seu quarto.
Durante os dias que se seguiram aquela cama - aquele quarto - foram o seu refúgio das conversas cobertas de mel e adoçante sobre os casos médicos da sua tia-avó, das viagens forçadas no carro novo do seu padrasto, mas nem a sua porta coberta de posters de filmes e cantores da sua adolescência era capaz de repelir as intromissões da sua mãe. Trazia normalmente bolachas e chá. Ou leite. E um assunto sensível. Normalmente - ou quase sempre - relacionado com a probabilidade de ela ter netos no futuro próximo. Odiava ter sempre a mesma resposta para a sua mãe que tinha para uma pessoa estranha num bar que acabar de conhecer.
«Solteiro. Ainda.»
E sempre que dizia o ponto final na sua afirmação pregava mais um prego no caixão da sua mãe. Palavras dela.
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