quinta-feira, 31 de março de 2011

Numa noite. De um dia qualquer. Desistiu de ser a personagem do filho pródigo que regressa a casa depois de conquistar os horizontes citadinos e é calorosamente abraçado pelos seus pais. Decidiu sair.

Noite de estrelas.

Estrelas. Quantos escritores, pensadores e avôs haviam dito até aquele momento que elas eram mais do que corpos celestes? Que seu significado era maior do que as poucas linhas que vinham nos nossos manuais de Ciências da Terra e da Vida que tínhamos na primária. Mas – pensou ele – o que interessava isso numa noite tão bela? A resposta era tão automática como as ovações que recebia em palco - nada.

Rua estreita ladeada de pequerruchas casas atrás de viela escura mal iluminada por aquele mesmo candeeiro levaram-no ao paço da igreja. De novo. Quando, lá longe, ele chamava aquelas ruas e vielas de seu reino e domínio o seu castelo era o edifício da igreja. Era o que mais se assemelhava a um castelo. Sob a luz das estrelas, dos candeeiros, e das janelas o edifício branco parecia um colosso fantasmagórico. Como outrora, aproximou-se das portas da igreja imaginando-se protegido por fileiras de guardas que se iam colocando em sentido enquanto passava. Conseguia ver pelas janelas as sombras de quem se mexia em correrias pelo regresso do seu governador. E isso deixava-o mais contente que os braços exageradamente abertos da sua Mãe. Quando subiu os primeiros degraus da curta escadaria para o seu castelo volveu as costas para observar o paço. Os seus súbditos tinham-se reunido em festa para o receber. E parecia uma cena de cinema. Mal conseguia ouvir os seus próprios pensamentos no meio dos gritos de euforia pelo seu retorno. Não conseguiu no meio das celebrações esconder um pequeno aceno e um sorriso comovido às multidões.

De repente, por entre os urros e palmas um pequeno e seco riso destacou-se. Alertado para o perigo de padecer aquando o seu regresso pelos seus fiéis conselheiros deu logo sinal aos guardas para procurarem quem se ria. Mas eles tinham desaparecido. E as palmas também. E as serpentinas. E os seus súbditos. Só um permanecia. No meio da luz das estrelas. Dos candeeiros. E das janelas só um ficara. Novamente um curto e seco riso se ouviu. Era ele.


Um rapaz afadistado,
Sujo, descalço, vigoroso,
- Uns vinte anos, se os tivesse!
Procura no meu olhar
Talvez o instinto do pecado
E pára um pouco ao pé de mim:
- Uma centelha de vício
Desbravado em lupanares
Que a sensualidade improvisa
Num portal ou no recanto
De uma rua solitária,
Fulge e amortece molhado
No mistério dos seus olhos
De um negro azul concentrado.

Põe-se a fazer um cigarro.
Pede-me lume; e então, vejo,
No seu todo o indício fundo
De andar vendido e dominado
Ao contacto vilíssimo de um beijo…
- «Não quer vir dar um passeio?»
E a sua voz abafada
Numa intenção descoberta,
Levou-me com ele…

quarta-feira, 23 de março de 2011

Ao abrir da porta e ao sinal de um guincho imperceptível sabia que dava por si a contar os minutos pelo fim daquela visita. Alegando estar um pouco cansado da viagem conseguiu fugir – passada uma ou duas horas de conversas sobre as traquinices da infância dele, do Fiat 127 azul-marinho que os pais tinham quando ele era pequeno (quando ainda tinha pai) e a porta do passageiro não fechava, e até de como era a sua vida na cidade – para o seu quarto.

Durante os dias que se seguiram aquela cama - aquele quarto - foram o seu refúgio das conversas cobertas de mel e adoçante sobre os casos médicos da sua tia-avó, das viagens forçadas no carro novo do seu padrasto, mas nem a sua porta coberta de posters de filmes e cantores da sua adolescência era capaz de repelir as intromissões da sua mãe. Trazia normalmente bolachas e chá. Ou leite. E um assunto sensível. Normalmente - ou quase sempre - relacionado com a probabilidade de ela ter netos no futuro próximo. Odiava ter sempre a mesma resposta para a sua mãe que tinha para uma pessoa estranha num bar que acabar de conhecer.

«Solteiro. Ainda.»

E sempre que dizia o ponto final na sua afirmação pregava mais um prego no caixão da sua mãe. Palavras dela.

quarta-feira, 16 de março de 2011

A viagem não era longa demais, mas longa o suficiente para adormecer os músculos dos quadris e das pernas. Num dos olhares que ia lançando pelo vidro meio fosco do óleo e suor das mãos de outros passageiros reconheceu a paisagem civilizada que brotava no meio de algumas árvores. E quase num piscar de olhos o comboio parou. Um pouco acima do seu campo de visão uma seta vermelha de pixéis vermelhos indicava que a saída era a porta da esquerda.
Casa. Na verdade era a casa dos pais. Da sua mãe. Ele não tinha conseguido aguentar as viagens constantes para o Porto e, sob ameaças e maldições da sua mãe, decidiu passar a chamar a cidade de casa. E agora que caminhava por aquelas ruas sorria ao pensar no quão rapidamente elas tinham perdido qualquer significado. Ainda eram os sítios onde tinha andado de bicicleta no Verão, dado o primeiro beijo às escondidas depois de um dia de aulas e palco de outras memórias, mas eram só isso agora. Palco. E ele sentia-se um estranho na pele de um estranho que regressa a casa.
Ali estava ela. Pequenina. Fachada verde limão. Telhadinho laranja. Um pequenos jardim onde a sua mãe cultivara margaridas e outro tipo de flores simples emoldurado por um – o mesmo – portão preto. Conseguia ouvir o leve zumbido da televisão e a ocasional gargalhada do seu padrasto. Provavelmente estavam a ver um daqueles concursos apresentados por um daqueles humoristas sem piada. Já não voltava a casa da sua mãe há 6 meses 2 semanas e 3 dias. Sabia perfeitamente o que o esperava. Abraços e beijinhos. Urros de alegria e de saudades. Algumas lágrimas. A sua mãe argumentaria que ele estava mais magro apesar de ter engordado 8 quilos (fizera questão de se pesar). O seu padrasto convidaria-o a beber um cálice de vinho do Porto. E depois perguntariam pelas razões que o haviam impedido de os visitar mais cedo. E começariam as histórias e episódios familiares que perdera. A sua sobrinha provavelmente já saberia escrever. O seu irmão já teria comprado uma casa nova. Melhor.
Sentou-se no muro que separava o palco do acto seguinte. Acendeu um cigarro. Inspirar.

quarta-feira, 9 de março de 2011

O barulho de um Alfa despertou-o subitamente e nunca mais conseguiu fechar os olhos. O comboio ia quase vazio. Ninguém ia para os seus lados.

Ia passar uns dias a casa da mãe que o havia torturado durante semanas a fio. A sua mãe tinha-o educado sozinha desde os 4 anos, altura em que o seu pai fugiu. Sem rumo. As pessoas da sua família diziam-lhe sempre que ele era o retrato do seu pai. Palavras que ele usara desde então como desculpa para todo e qualquer mau comportamento ou decisão que perpetrava. Dentro e fora da família. O seu extenso curriculum vitae de empregos e relações eram justificados por essas palavras. Tudo era descartável.

No vidro do comboio conseguia ver a sua cara espelhada na semi-escuridão. Não se achava feio. Pelo contrário. Era bem arrogante no modo como se carregava e sabia que era o tipo de pessoa que atraía os olhares de desconhecidos quando entrava numa sala. Não conseguia ver a semelhança com o seu pai. Reconhecia de algumas fotos antigas e deslavadas os mesmos olhos escuros grandes e lábios carnudos e até mesmo a mesma figura franzina, mas não via o seu pai no seu reflexo daquela janela. Nas fotos o seu pai sempre lhe surgia como uma personalidade sombria e cáustica e, apesar dos dias que corriam, ele não via esses mesmos traços desenhados na sua testa. Não tinha aquelas duas rugas vincadas entre os olhos. Nem a pele tostada pelo sol. Os seus traços eram mais singelos. O seu olhar mais hospitaleiro. Os seus lábios mais apaixonados. Não via a semelhança, mas ao mesmo tempo não se queria distanciar muito dela.

A sua mãe permanecera intocada, após a fuga do seu marida, durante 22 anos. Ele nunca a incentivara a procurar um novo companheiro. Achara sempre que aquela devia ser a sua condição. E que ele seria o único homem com quem ela partilharia a cama. Não tinha a sua mãe como amargurada ou fria por tal. A verdade é que nunca colocara muito tempo nesse pensamento e não seria nessa viagem que o iria fazer. Gostava que ainda hoje ela lhe tirava as espinhas do bacalhau – quando o fazia para o almoço – e isso confortava-o e era-lhe suficiente.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Não foi sempre assim. Não. Ao sair pela porta das traseiras do teatro e fugindo às conversas exageradamente entusiastas de pessoas que nunca tinha visto e que sentiam obrigação de falar com ele sobre o quanto adoravam o seu trabalho, não se deixava esquecer do momento em que mudou.  
«No meio de uma produção pomposa e condescendente é a interpretação de Daniel Teixeira (Lovborg) que mais deixa o espectador desorientado.»
Foi a única crítica má que foi tecida à produção. E aquelas 21 palavras a mancha excepcional ao seu trabalho. Já tinha recebido críticas desfavoráveis. Muito más até. Mas nunca lhe tinham dirigido uma crítica tão críptica. O que quer dizer deixar o público desorientado? Durante dias andou obcecado com aquele adjectivo. Percorreu dicionários e até outros artigos do mesmo autor na esperança que a diferente contextualização do mesmo adjectivo o fizesse compreender o que havia de errado com o seu trabalho. Consigo. Mas até o uso da palavra havia sido único. Desde então tudo lhe soube a derrota. Dentro e fora do palco. Dentro e fora de personagem.
Era Sábado – quase Domingo – e ele estava sentado no chão da estação de comboio. Faltavam 45 minutos para o seu comboio chegar. E uns outros quantos para partir. No seu colo um saco de papel rasgado servia de mesa posta e as ondas de chegadas e partidas de forma de entretenimento. Por aquela altura da noite, tal como aconteceria na televisão, surgiam também programas mais marginais que tentavam esconder-se pelos cantos do edifício azulejado. Romeus e Julietas de casa de banho e Lost Boys que vendiam a Terra-do-Nunca. Todos vestindo – ou despindo – roupa preta do seu corpo. O mundo afinal existia em dois tons. O secreto e o revelado.
Quando finalmente, ao som da chegada do seu comboio, se decidia levantar havia sempre aquele momento em que se perguntava o que aconteceria se o perdesse. E se perdesse o das 01:55. Ficaria ali na estação? Talvez se deixasse seduzir por uma Julieta. Ou se escondesse com um Romeu. Iria vaguear a noite atrás de si? Entrar, talvez, em bar atrás de bar. Dançar em escuro atrás de escuro. E talvez se deixasse seduzir aí por uma Julieta. Ou agarrasse um Romeu na escuridão. Talvez. Mas aquele adjectivo não o deixava dançar. Avançou.