terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Anda um ai na minha vida
Que me lembra a cada passo
A distância que separa
O que eu digo do que eu faço.
A.B.


I


Aplausos. As luzes sobem na sala, mas o seu papel ainda não terminara. O seu olhar finge relações instantâneas com estranhos e o seu corpo verga-se graciosamente aos clamores de quem veio ao teatro. Tudo parte de uma interpretação que o via padecer perto do final do espectáculo e ressuscitar no descer da cortina. Aproveitava sempre esse breve momento para, ainda no chão, limpar a cara de vestígios maiores de suor, lágrimas e, numa ocasião, sangue. Afinal, o teatro havia terminado. Quando a cortina subia ele já não é quem «eles» pagaram para ver. Era ele – e como era ridículo aquele momento final de revelação de que, afinal, nada daquilo que «eles» viram ali era verdade. Na verdade ele era só um corpo moreno, delgado, que tinha de pagar as contas no final do mês, cujo único talento era mentir. Mas «eles» pareciam mais que dispostos a felicitá-lo por tal dom. Em palmas. Em ovações.

Quando lhe pareceu que «eles» se cansavam de bater palmas deu um passo atrás e com um sorriso confiante atirou-lhes, na sua palma suada de trabalho forçado, um beijo – uma última mentira. As luzes da sala desceram ao som da cortina e, como brilhante profissional que lhe davam crédito ser, descendia em si também. A saída final de cena tornara-se numa marcha estranha entre o cansaço e o orgulho, mas sempre silenciosa. Só na noite de estreia é que se recordava de um gesto colectivo de prazer e – alegria. Com o passar das noites o desejo colectivo passava a ser de um regresso à realidade o mais rapidamente possível. E ele não era diferente. Ganhara a tendência de se movimentar pelos bastidores de momento baixo na esperança de os seus habitantes não se distraírem das suas funções e que decidissem interpolá-lo com palavras vazias e ele não tivesse medo de negar a tentação de fugir.

Quando entrava no camarim – o maior do teatro que o hospedava – tinha o seu ritual. Trancar a porta. Sentar-se em frente ao espelho. Acender um cigarro. Fechar os olhos. Inspirar. Silêncio. Expirar. Abrir os olhos. Apagar o cigarro. Despir-se. Olhar-se ao espelho. Tirar a maquilhagem. Lavar a cara. Olhar-se ao espelho. Silêncio. Fechar os olhos. O calor da luz amarela do espelho aquecia-lhe a pele ao ponto de sentir a pelugem da sua face crepitar. Acender um cigarro. Vestir a sua roupa. Sentar-se novamente. Fechar os olhos. Inspirar. Silêncio. Expirar. Abrir os olhos. Apagar o cigarro. Calçar-se. Pegar no telemóvel. Ligar o telemóvel. Senti-lo vibrar na mão. Fechar os olhos. Inspirar. Silêncio. Abrir os olhos. Destrancar a porta. Sair. Desligar a luz. Expirar.

Nas vielas da desgraça
A noite é sempre maior.